| Mario Maddalozzo - Do Reveza 10 Para o Ultraman |
| Sexta, 19 de Junho de 2009 |
| Fonte: Mario Maddalozzo |
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No dia 07 de junho de 2009, foi realizado a quarta edição do Reveza 10. A prova é organizada pela Travessias.com e ocorre na Ilha de Anhatomirim, no município de Governador Celso Ramos-SC. É uma disputa entre equipes de 10 atletas, cada um nadando os 1300 metros ao redor da ilha. A minha academia, a Cabral Natação e Fitness, esteve representada por quatro equipes. Três eram formadas da forma convencional, mas a quarta equipe estreou a inédita categoria “individual”. Estive em contato com os organizadores a um mês da prova e pedi a eles que me concedessem essa oportunidade. Sabendo que já havia nadado distâncias superiores em piscina, foram muito atenciosos e me incentivaram bastante. Precisava da oportunidade para nadar ao menos 10 km em mar, com toda a segurança de uma prova organizada. Treinar natação no mar desacompanhado pode ser muito arriscado, já que o risco de atropelamento por embarcações é sempre presente. O meu objetivo principal era avaliar meu condicionamento atual frente aos 13 km de natação. Também precisaria estar bem disposto ao final, já que no primeiro dia do Ultraman, terei que nadar 10 km e depois pedalar 145km de muitas subidas, terminando essa etapa no topo do vulcão Kilauea. Na véspera da prova, recebi uma toca especial com o número 300. O número, como o título do filme, era uma brincadeira da organização, diante da “batalha” que teria pela frente. Como a prova consistia em dez voltas de 1300m ao redor da ilha, eu teria a oportunidade de me alimentar e hidratar nos breves instantes entre uma volta e outra. Minha nutricionista, Sandra Trevisan criou o plano alimentar. E minha namorada estava lá para me auxiliar ao final de cada volta. Como minha namorada não conhecia bem o esquema das provas, disse a ela que devia fechar todas as voltas em 20 minutos ou mais. Meu treinador, sempre responsável e precavido, fez um plano mais conservador para meu ritmo. Deveria dosar minhas forças no início e progressivamente acelerar o meu ritmo até o final. Mas eu, como sempre teimoso, tinha metas mais ambiciosas planejadas. Após muitas provas e me conhecendo muito bem, costumo utilizar minha sensibilidade para ditar meu ritmo nesse tipo de prova mais longa. Eu me programo para não sair de minha zona aeróbica em nenhum momento e, ao perceber o estado dos músculos e da minha respiração, procuro ficar sempre próximo dessa fronteira entre o "forte" e o "forte demais". É um limiar entre a economia de esforços e o ritmo kamikaze. É verdade que tenho certa predisposição para forçar o ritmo da natação. É que tendo lido o livro “Swimming to Antartica”, da nadadora americana Lynn Cox, sempre busco honrar o privilégio que é nadar no mar ao buscar a sensação de músculos dos “braços quentes como brasas”. Dessa forma, o esforço mental acaba sendo apenas para diminuir o ritmo. Ao entrar na água, o frio parecia realmente uma agressão ao organismo. Mas após a largada, isso logo passou e deixei o frio atrás de outros dez itens de minha lista de “o que pensar”. O contorno da ilha exige boa visão do percurso e um pouco de coragem. Era preciso nadar muito rente às pedras incrustadas de mariscos muito afiados. Além disso, um lado da ilha teria corrente contra e o outro um pouco de corrente a favor. Ao nadar rente à ilha em alguns trechos era possível esconder-se das correntes contrárias. Ao afastar-se um pouco da ilha do outro lado, a corrente poderia acelerar o passo. Fechei a primeira volta em 19 minutos e 30 segundos. Quase seis minutos mais rápido que o tempo que meu técnico havia sugerido. Não tive a percepção de estar forçando demais o ritmo e não estava ofegante. Mesmo assim, eu precisaria dosar um pouco mais o ritmo. Volta a volta, meu ritmo manteve-se razoavelmente constante. Mas estava um pouco preocupado com a possibilidade de hipotermia, ao final da prova. Por isso, ao finalizar a terceira volta, pedi a minha namorada que preparasse um copo com chá quente para a próxima parada. Fiz mais uma volta e sentia os pés e as mãos com menos sensibilidade, devido ao frio. Ao retornar para o pitstop, recebi o chá e um gel de carboidrato. Mas no apuro da prova, minha namorada esqueceu-se de verificar a temperatura do chá. Heheheh... “Fofinha, o chá tá fervendo!” – foi o que eu disse após cuspir desesperado um grande gole de do líquido escaldante. Eu achei aquilo muito engraçado, já que eu sempre vejo o lado cômico das coisas que acontecem comigo. Além disso, a minha frase dita literalmente “no calor do momento” (que me queimou a língua e um pouco da garganta) serve como uma declaração de amor difícil de igualar! (Opa, saí dessa com créditos extras!). Mas ela, infelizmente, acabou ficando preocupada comigo. Devo fazer aqui um "mea culpa" no quesito da temperatura do chá. É que com medo de que a garrafa térmica não "segurasse o calor", como dizem, havia enchido o recipiente com água fervendo várias vezes pela manhã, antes de finalmente colocar o chá ("Raspberry Royale, da Bigelow, caso alguém tenha ficado curioso quanto ao sabor. hehe.). Apesar da lingua queimada, devo admitir que esse método que já era recomendado pela minha avó, funciona mesmo! E depois desse chá fervendo, ao melhor estilo “deixa de frescura!”, curiosamente parei de me preocupar com o frio. Hehehe. Deviam ensinar isso aos nadadores do Canal da Mancha! Mas conforme as horas foram passando, a corrente foi ficando mais forte, sobretudo ao contornar algumas pedras no canto noroeste da ilha. Muitos nadadores ficaram presos ali por vários minutos, como que um corredor treinando na esteira. Eu venci esse trecho sem muita dificuldade. Bastava dar um pique de uns 20 segundos para escapar da parte da corrente que te prendia no lugar. Nessa hora lembrei-me do meu técnico, Almir Brandalize. É que ele costuma testar nosso “torque” na água com uma espécie especial de dinamômetro. Na última ocasião em que fizemos esse teste, fiquei orgulhoso por ter conseguido arrastar o Almir uns 30 cm longe do seu lugar. Ele levou um susto, deu risada e por pouco não caiu de costas no chão. Hehehe. Na tentativa seguinte, ele pediu que outro professor também pisasse sobre o aparelho para que esse ficasse imóvel. 27 kgf de força de arrasto. Até o Ultraman, quero estar conseguindo arrastar “um trailer” a nado. Ou quem sabe um Galaxy? Hehehe. Para vencer esse pequeno trecho, além do pique era importante saber para que lado nadar. Os tempos de Rafting também ajudaram nessa hora. Logo entendi que a corrente vazante se concentrava naquela pequena concavidade no desenho da ilha. E ali se formava “um retorno” miniaturizado, irmão caçula daqueles “retornos” que levam os surfistas para além da arrebentação nas praias de surf, quando cercadas por paredões de pedras. No lado oposto da ilha, a corrente ajudava um pouco e podia curtir um pouco o incentivo recebido daqueles que assistiam a prova por lá. Fiz as seguintes parciais: tempo Ritmo de 100m largada ------ ------ 1 19:30:00 1:33 2 20:15:00 1:37 3 20:55:00 1:40 4 22:26:00 1:47 5 22:44:00 1:49 6 24:00:00 1:55 7 24:52:00 1:59 8 24:47:00 1:48 9 24:08:00 1:55 10 24:35:00 1:58 total 3h 48min 31seg 01:49
Fechei os 12.500m em 3 horas, 48 minutos e 31 segundos. Diante das demais equipes formadas por 10 nadadores cada, minha equipe de um homem só teria ficado em 14.o lugar dentre as 30 equipes! Mas, como terem permitido que eu nadasse sozinho foi uma exceção, concordamos previamente que meu tempo não deveria entrar na classificação normal. Vale explicar que os 13.000m viraram 12.500m porque nadei sempre muito próximo das pedras da ilha. A diferença de 500m foram auferidos por satélite (ok, com o uso do google earth mesmo.). Fiquei bastante satisfeito, sobretudo porque na minha parcial de 10 km, fechei o tempo de 2 horas 59 minutos e 46 segundos (com ritmo de 1:47 por 100m). Ao estilo do triátlon, nadei usando quase que exclusivamente os braços. E ao final da prova, estava um pouco cansado, mas só da cintura para cima, o que é bem animador. Já o pescoço, da próxima vez merece mais creme para prevenir os machucados da fricção da roupa de neoprene contra a pele. Ficou em carne viva. Ao me aproximar para a última volta, fiquei muito emocionado ao ver o pessoal que irá me acompanhar no Hawaii na chegada. É a agora chamada “Equipe Trilosofia”. Esse é o pessoal que acreditou desde o começo. Quando “ir ao Ultraman” era apenas um sonho, eles me disseram sem titubear: “Se você for, eu vou lá para te ajudar.” A vida nos dá sinais de quando estamos no caminho certo, fazendo algo de valor na sua experiência de vida. Alguns sinais são mais sutis que outros. Quando contei aos amigos que havia conseguido a vaga para o Ultraman, quase sem exceção, vi meus amigos chorando espontaneamente de alegria. Vai ver é o tal sinal. E nem um pouco sutil. Hehehe. Dei um pique final e corri para abraçar todos. Olhos marejados e não era da água do mar.
Acompanhe os próximos passos dessa jornada rumo ao Ultraman World Championship Hawaii, através do site do atleta: www.trilosofia.com |
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