Domingo, 5 de Fevereiro de 2012   
   

Os erros fazem parte do esporte

Uma conversa...
10/06/2003

Neste último final de semana estivemos no Campeonato Brasileiro Infantil de Natação - Troféu Ruben Dinard, na cidade de Fortaleza. Achei o número de 270 participantes um efetivo bastante razoável face aos custos que uma competição como essa embute para cada um dos participantes. A passagem aérea interna em nosso país é uma das mais caras do mundo! Em uma conversa com o amigo Rômulo Noronha sobre uma reportagem na revista Ícaro da Varig, que dissertava da experiência de Zico no Japão, achamos interessante quando ele cita que a cultura japonesa abomina o erro. Para o japonês, errar significa gerar o mais profundo desprezo por parte da sociedade. Talvez seja o preço a ser pago por um país pujantemente construído logo após a total destruição na Segunda Guerra Mundial. Na entrevista, Zico afirma que teve muitos problemas para explicar que no futebol a coisa era diferente. Ele diz na matéria que não queria de maneira nenhuma mudar a cultura japonesa, mas expôs aos atletas: se errarmos nove vezes e acertarmos uma, ganhamos o jogo por um a zero! E isso acabou motivando nosso papo de hoje. Os erros fazem parte do esporte e da nossa vida. Quantas conquistas foram alcançadas após muitas tentativas e erros? Imaginem nossos atletas da natação, quantos erros cometem até acertarem sua forma técnica de nadar, virar, sair e até mesmo treinar? Quantas braçadas executam em cada sessão de treinamento? E as meninas da natação sincronizada? São milhares de movimentos, em uma coreografia, até que se aproximem do estágio considerado ideal. E os atletas do pólo-aquático? Quantos chutes até dominarem o jeito, a força, a direção e o efeito da jogada? E o plano tático? Quantas tentativas, até acertar a jogada certa de acordo com os jogadores que o time possui? E até acertar a maneira de jogar de acordo com os adversários? Nem se fala em quantas "pranchadas" deram, e dão, nossos campeões dos Saltos Ornamentais... Impossível a melhora sem ter a coragem de cometer erros!

As chances...

As tentativas e os erros nos propiciam duas coisas fundamentais: em primeiro lugar, nos mostram o que não serve e, em segundo lugar, nos dá a oportunidade de abordar o mesmo problema de uma forma mais inteligente. Por isso, cada vez mais se torna importante o trabalho junto aos nossos atletas incentivando-os a tentar sempre! A derrota de hoje pode e deve ser o caminho da vitória de amanhã. Mas para ter a iniciativa de tentar é importante, principalmente nas idades menores, ter a coragem, a auto-estima e o apoio em alto nível. Não é a crítica que desestimula. Mas a forma de criticar. Para os menores, quando errados, não custa falar: "Foi bom, mas e se você tentasse assim....?" Pela lógica, quanto mais os atletas e as pessoas amadurecem, os erros vão diminuindo... Mas isso, se eles não desistiram de tentar, de procurar novas abordagens sobre os mesmos problemas. A confiança nos ajuda a acertar, a auto-suficiência nos induz ao erro! Já assisti muito "já ganhou" não chegar a lugar algum. E você? Com certeza, também! A experiência é fundamental na busca de melhores resultados. O controle emocional vai se tornando cada vez mais "administrável" quanto mais se tenta. Portanto, não é o mais velho quem, necessariamente, tem a maior experiência. Mas, sim, quem mais tentou de forma objetiva, inteligente, planejada, "focada".

Os erros de percurso...

Para evitar os chamados erros de percurso, as surpresas, a melhor coisa é se preparar de forma adequada. Aqui entra em ação a relação técnico e atleta, que tentam formar uma dupla imbatível na busca do melhor resultado. São duas pessoas que, através da convivência, do trabalho, do relacionamento e dos objetivos comuns acabam se tornando uma só figura. Após muitas tentativas, erros, ajustes, horas intermináveis de trabalho e discussão, aparece sempre a melhor solução. O planejamento, a melhor hora para treinar, o melhor esquema de viagem, as condições mais propícias de preparação, a equipe multi-disciplinar, a estratégia a ser adotada, o estudo dos adversários, os momentos para descansar, o encontro com os amigos, as brincadeiras, a descontração...tudo faz parte da preparação. Tudo para tentar diminuir os erros na hora do "vamos ver"! Quem tiver "mais garrafa prá vender", sai na frente. Os detalhes são importantes. A técnica é fundamental. Conhecer seus principais defeitos e tentar corrigi-los é parte da solução. Na natação, os fundamentos devem ser exaustivamente trabalhados. Uma boa saída e uma boa virada, além de eficientes para o resultado final, propiciam uma economia de movimentos e um ganho na distância a ser vencida. O Prof. Rein Haljand, ao analisar nossos atletas, lançou a questão: se um atleta treinar, pelo menos, uma saída a cada sessão de treinamento, terá realizado um número expressivo de saídas e terá a oportunidade de melhorar bastante esse fundamento, existente em todas as provas, invariavelmente! Lógico que os erros vão continuar acontecendo, na medida em que somos seres humanos. Mas o segredo está em tentarmos diminui-los para se tornar uma vantagem sobre nossos adversários.

Por Ricardo de Moura
natacao@cbda.org.br