Domingo, 5 de Fevereiro de 2012   
   

Vencer o Canal da Mancha
Uma faixa de mar de água fria engana os nadadores com seu canto de sereia.

Depois de nadar durante 25 minutos nas águas azul-esverdeadas do canal, percebo duas coisas a respeito dos nadadores que reunidos na praia de Dover, se preparam para atravessar este pedaço de mar gelado. Primeiro: deve tudo ser doido. Segundo: doidos ou não, têm muita coragem.
Observo-os numa das extremidades da praia, untando os corpos com lanolina e petrolato. Depois, enfiam as toucas que trazem uma mensagem pouco modesta:"Quando as coisas engrossam, os velocistas somem.". Ainda tem tempo para gracejar sobre quem terá passado mais graxa no corpo e de como irá se portar aquele tempo imprevisível. Um concorrente chega até a guardar uma esferográfica em seu traje para anotar na mão as voltas cumpridas.

Cada percurso é de aproximadamente 1000 m (a distância de uma ponta do porto de Dover à outra). Os nadadores do canal cumprem sua rotina durante horas consecutivas, só parando para tomar bebidas ricas em carboidratos, que lhes fornecem energias. Num desses intervalos, vejo uma concorrente tremendo tanto que a bebida lhe salta do copo plástico. Mas ela o segura com as duas mãos e acaba conseguindo bebê-la. Mergulha depois para mais uma hora.
Toda essa gente treina com uma dedicação incrível para esse grande acontecimento da natação mundial, demonstrando a magia que estas 21,4 milhas náuticas despertam na imaginação humana. No total, já cerca de 4.200 pessoas de 42 países tentaram cumpri-las.

Segundo Ed Acevedo, docente da Universidade do Sudeste da Louisiana que já fez duas tentativas falhadas de completar o percurso, "são a grande distância, a ameaça de hipotermia, o tempo imprevisível e a constante necessidade de reforço energético que tornam s travessia do Canal da Mancha o maior desafio à resistência humana."

Os nadadores enfrentam esgotos, manchas de óleo, algas que irritam a pele e os 400 barcos que atravessam diariamente o concorrido estreito de Dover. Além disso, deparam-se com urticantes águas-vivas (inclusive com caravelas), que lhes provocam inchaços, alérgicos na língua e garganta, impedindo-os de respirar.
Lutam também contra as dificuldades provocadas pelas condições climáticas e pelas marés, que sobem e descem de seis em seis horas entre o oceano Atlântico e o mar do Norte. Na praia, há sempre histórias de pessoas que conseguiram chegar a centenas de metros da costa francesa, acabando depois por ser afastadas pela maré, entorpecidas e com vômitos.
Mas o obstáculo pior é a água fria, entre os 12ºC e os 17ºC. Ao cabo de poucas horas, com os lábios azuis e o corpo trêmulo, até mesmo os melhores nadadores podem perder algo de sua lucidez, mostrando-se incapazes de responder a perguntas simples que lhes são feitas pelos pilotos dos barcos que os acompanham. A hipotermia é a responsável por 80% dos insucessos.

"O frio dá ás mulheres uma vantagem natural, que reside em nossa maior porcentagem de gordura no corpo", explica a nadadora maratonista Alison Streeter. "Os homens são mais fortes, mas isso de nada lhes serve contra o frio."
Alison, conhecida oficialmente como a rainha do Canal, é um compacto dínamo, dotado de um sorriso que desarma qualquer um. Nos dias comuns, é uma serena operadora de câmbio de um banco londrino, mas quando troca a roupa de trabalho por um maiô, transforma-se numa máquina de nadar de 1,72 m de altura e 73 kg de peso.
Sua primeira travessia do canal aconteceu em 1982, quando tinha 18 anos. "Depois de uma hora, começo a sentir dores nos ombros e no pescoço e elas se mantêm durante toda a prova", conta ela "mas a gente tem de aguentar."
Em 1990, Alison superou muitas dores numa tripla travessia, um esforço prodigioso de 34 horas e 40 minutos que a levou a Dover até Calais, a que se seguiram um regresso a Dover e mais uma travessia até Calais. "Nas duas últimas horas, liguei o piloto automático", admite. "Meus pulsos estavam de tal maneira dobrados que forcei todos os tendões. Além disso, os tornozelos ficaram duas vezes maiores de inchados. E bem no final, fiquei presa numa armadilha para pegar lagostas."
Com sua 20ª travessia, em 1992, ela se tornou a recordista feminina. "Comecei a pensar: 'O canal é inglês; por isso, tem de ser uma britânica a bater o recorde'", conta com um sorriso.
Em julho de 1995, Alison já nadara a distância entre Dover e a França inacreditáveis 30 vezes. Hoje prepara-se para igualar o recorde mundial tanto masculino como feminino: 31 travessias.

"Estão anunciando mar calmo", informa Mike Oram, o capitão barbado do Aegean Blue, iate de 10 m que presta apoio á nadadora. Oram, que estabelece suas rotas por computador, escolheu Abbotscliff como ponto de partida. Embora fique mais para oeste que o ponto de partida tradicional (o que tornará a travessia mais longa), é o local ideal para se beneficiar da maré que vem do lado do Atlântico.

"Dependendo das marés e do vento, o percurso pode ser feito em curvas e não em linha reta", explica ele, "mas a rota difere de nadador para nadador porque é a sua velocidade que determina quando e onde o pegarão as mudanças de maré.

O HOMEM que deu início a esta loucura da travessia do canal foi o comandante Matthew Webb, um marinheiro musculoso que, em agosto de 1875, cumpriu a distância em 21 horas e 45 minutos. Sua rota em ziguezague acabou por ficar em 39,5 milhas, oportunidade em que o prefeito de Dover declarou: "Não acredito que, na história do mundo, se volte a realizar tal feito."
A história deu-lhe razão ao longo de 36 anos, apesar de nesse ínterim outros 70 bravos terem tentado a sorte. Mas, em 1911, T. W. Burgess conseguiu igualar a proeza. Doze anos depois, seguiu-se mais um sucesso, desta feita conseguido por uma americana perseverante, Henry Sullivan, que nadou durante 26 horas e 50 minutos - ainda hoje a mais demorada das travessias do canal.

Na década de 20, o desafio pegou, incentivado por um prêmio de 1000 libras (que hoje corresponde a 4900 dólares). Uma certa Dorothy Logan abiscoitou a quantia, limitando-se a nadar despreocupadamente para fora da vista, até um barco que a aguardava e que depois a transportou até próximo da costa francesa. Após este incidente,constitui-se a Chanel Swimming Association, para estabelecer as regras.
A travessia deve começar em praias e terminar em praias ou em rochedos. Os nadadores têm direito a receber alimentos durante a prova, mas não podem tocar quer no barco, quer em mãos que os auxiliem.Único equipamento permitido: roupa de banho não isotérmica, touca, óculos, vedadores de narinas, borrachas para os ouvidos, óleos e um bastão luminosos à noite.

Ao longo dos anos, gente tão jovem como o britânico Thomas Gregory (11 anos e 11 meses) e tão idosa como o australiano Clifford Batt (67 anos e 7 meses) conseguiu cumprir o percurso. Os recordistas masculino e feminino em termos de tempo são ambos americanos: Chad Hundeby (7 horas e 17 minutos, em 1994) e Penny Lee Dean (7 horas e 17 minutos, em 1994) e Penny Lee Dean (7 horas e 40 minutos, em 1978).

MAS regressemos ao presente: Alison aguarda o sinal de partida, após o qual inicia suas braçadas ritmadas, com as mãos se dirigindo descontraidamente para a frente e os pés batendo apenas o suficiente para mantê-la à superfície.
Uma hora depois, oram faz soar uma buzina de nevoeiro e a nadadora se aproxima do barco, recebendo um copo de papel das mãos de Freda Streeter, sua mãe e treinadora. No copo, uma bebida composta por carboidratos de maltodextrina com sabor de groselha preta. Deglutida a bebida, ela atira o copo por cima da cabeça. Sua refeição levou 15 segundos.
Nos heróicos, mas pouco científicos, velhos tempos, os nadadores comiam de tudo, de pudim de arroz a frango assado. "Ingerir sólidos significa demorar mais uma hora em cada doze", ensina Freda.
No posto da Guarda Costeira de Dover, o oficial de serviço, Alan Martin, observa as telas dos radares, assinalando a posição, direção e velocidade das embarcações em trânsito. Mas sem esquecer-se dos nadadores, fornece suas localizações quando, de hora em hora, entra em contato com os barcos. E acrescenta prudentemente: "Recomenda-se que seja mantida uma distância de segurança".
Duas horas após Alison ter começado a prova, o vento virou-se contra ela, atingindo 15 nós (quase 30 km/h). A ondulação de 1 m faz que o Aegean Blue balance desconfortavelmente.
Então, surgindo dentre as brumas de verão, surge o Faride, um cargueiro pesado de 60.000 t, sulcando as ondas a menos de 100 m de distância. Na ponte, um oficial de camisa branca aponta um dedo para a têmpora, fazendo o sinal universal de insanidade mental.

ALISON brincara dizendo esperar que o canal não estivesse demasiado calmo e aborrecido. Ao aproximar-se do barco para mais uma "refeição", balbucia: "Decididamente, aborrecido não está...". A ondulação já com 3 m, cortou-lhe o ritmo respiratório e detém-lhe dolorosamente as braçadas. Por vezes, da cristas das ondas, ela chega mesmo a nos olhar de cima.
"A Alison está levando uma surra ali dentro", comenta Freda, preocupada. O vento atinge a força 6 (de 22 a 27 nós) e o Aegean Blue navega com dificuldade em círculos, numa dança de virar o estômago.
Passadas 9 horas de prova (a 7 milhas da França), Alison continua nadando. São agora 21.05 h, e ela prendeu um bastão luminoso verde-amarelo a seu traje de banho, para que possa ser vista na escuridão. Meia hora depois, oram se debruça na amurada e grita: "Podemos continuar se você quiser, mas o vento está a 30 nós. Ainda levaremos de 3 a 5 horas". E Freda, claramente assustada: "Seja sensata de uma vez por todas e saia dessa água".
Enquanto o farol do barco incide sobre a nadadora, cujas braçadas, embora hesitantes, não param, oram toma uma decisão: "Como comandante, digo-lhe que você devia sair daí já." É com relutância que Alison acaba subindo a bordo e se deixa cair no convés. Apesar de terrivelmente desiludida, consegue mesmo assim dar um sorriso de bravura: "Desculpe, gente. Acho que ninguém consegue vencer sempre o canal..."

Alison Streeter encontraria condições mais favoráveis no dia 21 de agosto de 1995, perfazendo então a sua 31ª travessia. Depois, veio um 32ª, no dia 4 de setembro de 1995 - realizada em 10 horas e 58 minutos,façanha que fez dela a nova e ainda reinante campeã de travessia do Canal da Mancha.

JOSEPH A. HARRISS